Open/Close Menu A Diocese de Viseu é uma circunscrição eclesiástica da Igreja Católica em Portugal

“Não é aceitável que a condição económica do doente determine o seu acesso aos cuidados médicos”, lembrou, em entrevista, o Capelão, Padre Marco Cabral.
Ordenado em 27 de Junho de 2010, o Padre Marco Cabral é um dos três capelães do Centro Hospitalar Tondela-Viseu, desde julho de 2016 no Hospital S. Teotónio juntamente com o Padre Paulo Diamantino, uma missão que divide com o trabalho nas 11 paróquias no concelho de Fornos de Algodres. Nesta entrevista, explica qual o papel de um padre num hospital e ajuda a interpretar a mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial do Doente, este ano centrada na vocação materna de Maria.
Qual é o papel do Capelão num hospital?
O doente é o primeiro destinatário da acção do capelão e o único motivo pelo qual o Padre está no Hospital. Eu, e o Padre Paulo Diamantino, como capelães do Hospital de São Teotónio, asseguramos a celebração da Missa diária na Capela do Hospital às 16h30, visitamos os doentes levando-lhes palavras de conforto e de esperança a eles e aos seus familiares, atendemos em confissão quem nos solicita, sugerimos e administramos o Sacramento da Unção dos Doentes, colaboramos, dentro das nossas competências, em tudo que nos é pedido pelos muitos serviços do Hospital. Garantimos uma assistência 24 horas por dia, todos os dias do ano. Como somos ambos párocos, temos contado com a ajuda preciosa de outros colegas que trabalham nas imediações do Hospital, principalmente aos sábados à tarde e aos Domingos de manhã, e com a colaboração dos voluntários da capelania que asseguram a distribuição da Sagrada Comunhão três vezes por semana. Em suma, ser capelão hospitalar é ser Padre nas circunstâncias específicas de um Hospital. Em vez de uma paróquia com alguns doentes e alguns cuidadores, temos como que uma paróquia em constante mutação, com muitos doentes e outros tantos cuidadores. A solicitude com que nos devemos dedicar aos doentes que temos nas paróquias é a mesma com que nos temos de dedicar aos doentes internados no Hospital, só que em grande escala.
O que mais o tem preocupado neste tempo ainda curto em que está em funções?
Quando o Senhor Bispo me convidou, para desempenhar esta missão, fiquei assustado. O que me tranquilizou foi a parábola do Bom Samaritano. Quando Jesus, depois de contar a parábola, diz ao doutor da lei: «Então vai e faz o mesmo», foi como se mo estivesse a dizer a mim. A feliz coincidência de aquele texto surgir na liturgia, precisamente na véspera de eu iniciar esta missão, fez-me perceber que Jesus me dizia: «Viste o que fez o Samaritano? Não tenhas medo. Vai e faz o mesmo». É isso que tenho procurado fazer. A missão de pároco é diversificada, logo, mais aliciante. Mas, como agora concilio a paroquialidade com a capelania hospitalar, sinto-me plenamente realizado e enriquecido. Apesar da precaridade com que tenho desempenhado esta missão, fruto de “profecias” que preveem o seu fim sempre, tenho conseguido acompanhar muitos doentes, e respectivas famílias, principalmente aqueles cujas patologias exigem um internamento prolongado. É claro que a incerteza na continuidade impossibilita uma programação a médio e longo prazo. Mas lamúrias à parte, as melhores recompensas que tenho recebido são os sorrisos dos doentes que apreciam a minha presença e as lágrimas de agradecimento dos familiares que comigo rezam pelos seus doentes e que os vêm confortados com a Santa Unção.
O Dia Mundial do Doente tem este ano como tema decretado pelo Papa Francisco: “’Eis o teu filho! (…) Eis a tua mãe!’ E, desde aquela hora, o discípulo acolheu-A como sua” (Jo 19, 26-27). O que pretende o Papa com a mensagem deste ano?
Na mensagem para o Dia Mundial do Doente deste ano, o Papa Francisco, inspirado na vocação materna de Maria, exorta todos os discípulos a cuidarem uns dos outros. As palavras de Jesus, do alto da cruz, são, para o Papa, a origem da vocação materna de Maria em relação a toda a humanidade, pois, como mãe dos discípulos, cuidará deles pelo caminho e os tornará «capazes de amar segundo o mandamento de Jesus», capacitando-os, desse modo, para a concretização da vocação materna da Igreja.
É uma exigência ao respeito que é preciso ter pelo doente?
Na sua mensagem, o Papa vai mais além do que pedir respeito pela dignidade do doente. Ao elogiar o trabalho das congregações católicas, das dioceses e dos seus hospitais na assistência aos doentes nos países onde os sistemas de saúde pública são insuficientes, o Santo Padre recorda a importância de «colocar a pessoa humana no centro do processo terapêutico» e alerta para a necessidade de a investigação científica respeitar a «vida e os valores morais cristãos». Com a perspicácia que o caracteriza, o Sumo Pontífice não desperdiça a oportunidade de alertar para outras preocupações no campo da saúde e da investigação científica, concretamente o aborto, a eutanásia e as experiências com embriões humanos vivos.

Há igualmente no texto uma alusão à necessidade de “preservar os hospitais católicos do risco duma mentalidade empresarial, que em todo o mundo quer colocar o tratamento da saúde no contexto do mercado, acabando por descartar os pobres”. É ainda um apelo a uma nova orientação no tratamento do doente?
Como líder da Igreja Católica, o Papa tem a nobre missão de alertar os fiéis para as tendências socioeconómicas que afrontam e ameaçam os valores evangélicos. Apresentando como exemplo os fundadores de institutos católicos que, ao longo da história bimilenária, com a sua generosidade, criatividade e empenho na pesquisa científica, cuidaram dos doentes, o Santo Padre alerta para o perigo de, mesmo em instituições católicas, se secundarizar a dignidade da pessoa do doente. O bem-estar do doente é o que deve nortear todo o processo terapêutico. Não é aceitável que a condição económica do doente determine o seu acesso aos cuidados médicos que a ciência e a técnica possibilitam para a cura da sua patologia ou, na sua impossibilidade, que melhorem a sua qualidade de vida.
Concorda que “Estas orientações devem ser assumidas também pelos cristãos que trabalham nas estruturas públicas, onde são chamados a dar, através do seu serviço, bom testemunho do Evangelho”?
Concordo e sou testemunha de que os cristãos que trabalham no Hospital de São Teotónio, dão bom testemunho do Evangelho. Mas, dar bom testemunho do evangelho não se esvazia no campo da saúde, deve, cada vez mais, abranger todos os sectores da sociedade. Ser cristão, isto é, ser discípulo de Cristo, é estar ininterruptamente atento às carências do nosso próximo, com atenção redobrada se este passa necessidades.
É esse serviço que presta o Capelão dentro de um hospital como o S. Teotónio?
O Capelão no Hospital é Padre e, como em qualquer circunstância, tem que dar bom testemunho do Evangelho. Mas, a necessidade da incorporação do Assistente Espiritual e Religioso no staff de um Hospital, tem a sua génese nos direitos do doente e não da Igreja. Uma das primeiras coisas que nos ensinam no curso de capelães, é que a Igreja Católica está nos hospitais públicos não porque tem esse direito, mas porque o doente tem o direito de usufruir de assistência espiritual. A prova disso é que em centros urbanos onde a diversidade religiosa é mais acentuada, as equipas de assistência espiritual são multiconfessionais. No Hospital de São Teotónio, se um doente não católico solicitar a presença do assistente espiritual da sua confissão religiosa, nós temos que desenvolver os esforços necessários para que essa assistência seja prestada em tempo útil.
O Papa deixa elogios ao trabalho desenvolvido pelas congregações católicas nos hospitais, sobretudo nos países onde os sistemas de saúde são “insuficientes ou inexistentes”. Concorda que a Igreja católica tem feito um trabalho fundamental no bem-estar dos doentes dos hospitais?
Claro que concordo. Jesus quando enviava os discípulos habilitava-os com poder de curarem, além de os mandar levar a paz e anunciar a proximidade do Reino de Deus. Por isso, o mandato de cuidar dos doentes vem diretamente de Jesus. Já sabemos que o Papa Francisco não se inibe quando entende que deve criticar uma situação. E, se neste caso, elogiou é porque se orgulha do trabalho desempenhado por tantos católicos, ao longo dos séculos, junto dos doentes.
G.I./J.B.:EA

CategoriaIgreja, Pastoral, Viseu

© 2016 Diocese de Viseu. Todos os direitos reservados.
Desenvolvimento: scpdpi.com

Siga-nos: